No 25º aniversário da Web, criador defende constituição global da internet

23/08/2016

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O inventor da World Wide Web acredita ser necessário criar uma carta magna on-line para proteger e cuidar da independência do meio que criou e dos direitos de seus usuários pelo mundo.

Sir Tim Berners-Lee disse ao “Guardian” que a Web tem estado sob crescente ataque de governos e empresas e que novas regras são necessárias para proteger o sistema “aberto e neutro”.

Falando exatamente 25 anos depois que escreveu o primeiro rascunho da primeira proposta do que se tornaria a web, o cientista da computação disse: “precisamos de uma constituição global –uma carta de direitos”.

O plano de carta magna de Berners-Lee deve fazer parte de uma iniciativa chamada“a web que queremos, que exorta pessoas a criarem uma carta de direitos em cada país –uma afirmação de princípios que, ele espera, será apoiada por instituições públicas, autoridades governamentais e corporações.

“A menos que tenhamos uma internet aberta e neutra e que possamos não nos preocupar com o que está acontecendo por debaixo dos panos, não poderemos ter governos transparentes, boa democracia, bom acesso à saúde, comunidades conectadas e diversidade cultural. Não é ingênuo pensar que possamos ter isso, mas é ingênuo pensar que conseguiremos ter isso ficando de braços cruzados”, diz.

Berners-Lee tem sido um crítico assumido dos esquemas de espionagem britânico e americano revelados pelos vazamentos de Edward Snowden sobre a NSA. À luz do que foi revelado, diz ele, as pessoas buscaram questionar como os serviços de seguranças são administrados.

Sua visão também ecoa sobre a indústria de tecnologia, que tem um rancor particular dos esforços da NSA e do GCHQ (órgão de inteligência britânico) para minar a criptografia e as ferramentas de segurança – muitos especialistas dizem que tal postura é contra produtiva e está diminuindo a segurança de todos na web.

Princípios como privacidade, liberdade de expressão e anonimato responsável seriam abordados na carta magna. “Essas questões [da espionagem] nos pegaram de surpresa”, diz Berners-Lee. “Nossos direitos estão sendo violados mais e mais por todos os lados, e o perigo é que nos acostumemos com isso. Então, quero usar o aniversário de 25 anos para que todos façamos isso: tomemos de volta as rédeas da web e definamos o que queremos para os próximos 25 anos”.

A proposta de constituição da web também deve examinar o impacto das leis de direitos autorais assim e dos conflitos culturais e sociológicos que permeiam a ética da tecnologia.

Enquanto a regulação regional e as idiossincrasias culturais podem variar, Berners-Lee disse acreditar que um documento de princípios comum a todos poderia criar um padrão internacional para os valores da web aberta.

Ele é otimista e acredita que a campanha “a web que queremos” pode se popularizar, apesar da aparente falta de interesse do público geral nas histórias reveladas por Snowden.

“Eu não diria que as pessoas no Reino Unido estão indiferentes, eu diria que têm mais confiança em seu governo do que outros países. Têm a postura de ‘nós votamos neles, então vamos deixá-los resolver o que fazer'”.

“Mas precisamos que nossos políticos e advogados entendam de programação, entendam o que pode ser feito com um computador. Também precisamos rever muito da estrutura legal, das leis de direitos autorais –leis que põem pessoas na cadeia e que foram feitas para defender produtores de filmes. Nada disso foi feito para preservar o diálogo cotidiano entre indivíduos ou a democracia cotidiana que precisamos para que o país funcione.” diz.

Berners-Lee também defendeu fortemente mudar um elemento chave e controverso da governança da internet, que removeria uma pequena mas simbólica parte do poder americano sobre a internet. Os EUA têm mantido seu contrato com a IANA, instituição que controla o nome dos domínios da internet, mas encaram uma pressão crescente desde o caso Snowden.

Ele diz: “A remoção da ligação explícita [da IANA] com o departamento de comércio dos EUA está atrasada há tempos. Os EUA não podem ter uma posição global no controle de algo que não é nacional. Há uma tendência no sentido dessa separação, mas é precisamos de uma abordagem que leve em conta as várias partes interessadas e em que governos e empresas sejam mantidos a certa distância”.

Berners-Lee também reiterou sua preocupação de que a web seja “balcanizada” por países ou organizações que dividam o espaço digital para trabalhar sob as próprias regras –seja por motivos de censura, regulação ou comércio.

“Todos nós precisamos fazer parte desse futuro”, diz, citando uma resistência à regulação de infrações de direito autoral.

Diz: “O principal é fazer as pessoas lutarem pela web e verem o mal que uma ela dividida pode fazer. Como qualquer sistema humano, a web precisa de políticas –e, claro, precisamos de leis nacionais– mas não podemos transformar a rede em uma série de silos nacionais”.

Berners-Lee também apareceu nas Olimpíadas de Londres, em 2012, digitando as palavras “isso é para todos” em um computador no centro do estádio. Ele tem defendido firmemente os conceitos de abertura, inclusão e democracia desde que inventou a web em 1989, escolhendo não comercializar seu modelo. Rejeitando a ideia de que é inevitável que um meio tão poderoso seja controlado por governos e empresas comerciais, ele diz: “Só quando arrancarem os teclados de nossos dedos mortos e gelados”.

 

Fonte: folha.uol.com.br



Tags: Internet , Tecnologia

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