O DESPREPARO DA GERAÇÃO MAIS PREPARADA

26/10/2017

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado a geração mais preparada,despreparada. Uma geração que teve muito mais do que seus pais mas que ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Não, a vida não é nada fácil e o mercado de trabalho não é uma continuação de suas casas onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede.

Esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada,  e por isso, desconhecem que a vida é construção. Foram preparados do ponto de vista das habilidades mas despreparados porque não sabem lidar com frustrações. São capazes e preparados a usarem as ferramentas da tecnologia e despreparados porque desprezam o esforço. Conhecem o mundo através de viagens, mas desconhecem a fragilidade da matéria da vida. E por isso sofrem, e muito. Foram ensinados a acreditar que nasceram com o patrimônio da felicidade mas esquecerem de lhes ensinar  a criar a partir da dor.

Para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar, e muito! É preciso ter ética e honestidade, e não os gritos aos que estão acostumados. Viver é para os insistentes.

E o que leva a boa parte dessa nova geração ser assim? Talvez a ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito, seja a resposta. O pais não deveriam dar tudo aos filhos e nem protegê-los de todos os perrengues, assim, poderiam esperar a responsabilização e a reciprocidade. Frustrar os filhos não é sinônimo de fracasso pessoal.

Pra essa geração, o valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que alguém é “esforçado” é quase uma ofensa e ter dado duro para conquistar algo é sinônimo de perdedor. E não é! O que não é bacana, é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina.

Basta andar por este mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com as dores e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

Dentro de casa, muitas vezes, pis e filhos não estão dispostos a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos. Então, mais fácil é calar. Que engano!

O que sobra, são pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas que se desconhecem. E assim, todos sofrem muito nesses desencontros anunciados. Sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditam que se podem tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Seria mais saudável, que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Fingir que está tudo bem é tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Crescer é compreender o fato de que na vida há faltas e isso não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

Fonte: Portal Raízes – por Eliane Brum



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